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A dimensão mítico-poética da existência, das linguagens e das religiões populares no Brasil – entrevista com Florence Dravet

09/11/2021
Por João Damasio

Professora Florence Dravet

O antropólogo francês Gilbert Durand fundou uma teoria do imaginário com o argumento de que “as imagens não valem pelas raízes libidinosas que escondem, mas pelas flores poéticas e míticas que revelam”. Na presente entrevista, a pesquisadora Florence Dravet nos presenteia com a mesma sabedoria: “Nunca abordei a religião como sistema dogmático dependente de crença. Sempre como linguagem simbólica, abertura e estabelecimento de vínculos e relações”.

Florence é professora nos cursos de Comunicação da Universidade Católica de Brasília, membro do núcleo docente permanente do Mestrado Inovação em Comunicação e Economia Criativa e do Programa de Mestrado e Doutorado em Educação. Nesta conversa com João Damasio, a pesquisadora comenta sobre a interface que seus estudos fazem com a religiosidade, abordando noções como incorporação, Exu Bará, pombagira, comunicação do feminino e comunicação oracular, e experimentando seus indicativos metodológicos e epistemológicos.

Durante a entrevista, Florence questiona a centralidade que a área da Comunicação confere aos processos midiáticos, que ela situa entre outras mediações, como o corpo, a linguagem, o texto, o símbolo e a cultura. Sua perspectiva destaca-se do contexto habitual de estudo das religiões por promover o saber da religiosidade popular e a potência do imaginário brasileiro, sobretudo no que se refere à Umbanda, mostrando como a religião e os estudos mediúnicos oferecem contribuições para a comunicação e os estudos midiáticos.

Confira a entrevista completa:

 João Damasio: : Professora Florence, em sua trajetória, entre as Letras e a Comunicação, entre a França e o Brasil, parece se destacar um acentuado interesse seu pela comunicação intercultural. Poderia falar um pouco sobre sua formação acadêmica e suas experiências com o tema das culturas?

Florence Dravet: Minha trajetória intercultural começa fora da academia, com experiências de viagens e deslocamentos linguísticos desde cedo. Minha vinda ao Brasil muito jovem foi um dos mais importantes deslocamentos e foi determinante das minhas escolhas acadêmicas: fiz o curso de Letras para estudar língua, cultura e literatura lusófonas. Depois, segui a pós-graduação em busca de uma possível compreensão da dimensão intercultural da comunicação. Fiz mestrado em Lyon, com um professor de Antropologia, François Lupu, que me abriu um novo campo absolutamente fascinante. Depois, fui fazer doutorado na Sorbonne, com Martine Abdallah-Pretceille, em Didactologia das línguas e culturas, uma disciplina que não existe no Brasil, mas que seria justo situar entre as áreas de Educação e de Ciência da Linguagem. No meio do doutorado, voltei ao Brasil. Não bastava aprender uma língua, tinha que experimentar a cultura e isso passava pela literatura que trazia um aprofundamento histórico, social e cultural na relação com a alteridade, mas também pelo convívio social, porque este não prescinde da dimensão corporal da comunicação que é um componente essencial, fundamental. Percebi que a intelectualização do saber tendia a nos afastar do corpo, a comunicação então passou a ser para mim eminentemente não-verbal e me interessei muito pelos estudos de Palo Alto, do Colégio invisível. Ainda assim, faltava algo. Descobri ao final da minha tese de doutorado que o que faltava era a dimensão poética da existência e, por conseguinte, da linguagem. Mas não consegui integrar isso na tese. Chegou tarde demais. Então defendi meu doutorado perturbada pelo daimon da poesia e pelo busto (sem corpo) de Descartes, no salão de defesa da Sorbonne. Foi uma experiência terrificante! Entendi que, dali para frente, teria que ter muita coragem.

João Damasio: : Como você compreende a interface de estudos entre comunicação e religião?

Florence Dravet: Cheguei na religião no decorrer da minha busca justamente pela dimensão poética da linguagem. Obviamente fui ler os poetas (portugueses, brasileiros e franceses sobretudo), inevitavelmente li os místicos e os malditos e nessa mesma época conheci a Umbanda. Foi uma convergência de fatores. Eu não tinha nenhuma formação religiosa de base, além da tradição católica da cultura francesa que é ao mesmo tempo imbuída de um espírito de laicidade que deixa qualquer pessoa órfã, nesse sentido de não ter um vínculo religioso institucionalizado. O que mais me encantou na umbanda foi o reencontro com a dimensão mítico-poética da linguagem, com o símbolo vivo, atuante, na oralidade e no rito. Então para mim, a comunicação é um processo que “começa no corpo e termina no corpo”, como disse Harry Pross citado por Baitello Jr (2012). Tenho muita dificuldade em entender que os estudos de Comunicação sejam tão dependentes da noção de mídia e dos processos de midiatização. A meu ver, estes processos fazem parte sim dos estudos do campo, mas não são exclusividade deles. Então o que me interessa estudar nessa relação entre religião e comunicação são as mediações de todas as ordens que perpassam a experiência pessoal e coletiva da religião. A mediação do corpo, a mediação da linguagem, a mediação do texto, a mediação do símbolo, da cultura. Todas elas conectam pessoas com suas coletividades, coletividades com o transcendente, indivíduos com o transcendente etc. Nunca abordei a religião como sistema dogmático dependente de crença. Sempre como linguagem simbólica, abertura e estabelecimento de vínculos e relações.

João Damasio: Em minha conversa, neste mesmo site, com o professor Maurício Ribeiro da Silva (2021) sobre Umbanda e imaginário, ele destacou que as experiências rituais das religiões mediúnicas são “não massificáveis”, tendo em vista as relações entre corpo e mídia. Essa ideia me remete à sua pesquisa sobre o fenômeno da incorporação. Como a incorporação pode ou não ser relacionada, por um lado, com alguma noção de comunicação e, por outro lado, com os processos midiáticos?

Florence Dravet: Acho que essa sua pergunta pede uma resposta em duas direções. Porque se partir das religiões mediúnicas como você as chama, a dependência da relação entre o corpo do médium, a entidade que se apossa dele e a sua mensagem faz com que, efetivamente, o máximo de massificação possível se dê pela retransmissão midiatizada, o que não é impossível: hoje, médiuns usam meios de transmissão para difundir mensagens em rede sem a menor dificuldade. Conheci um médium que fazia isso toda quarta-feira pela manhã no interior de Portugal. Ele tinha ouvintes no mundo todo e ganhava bem sua vida com isso. Com a pandemia, vimos muitas casas espirituais transmitindo sessões com incorporações mediúnicas, oferecendo atendimentos e serviços de toda ordem como passes, curas à distância etc. Mas há também o processo inverso: a massificação das informações midiatizadas como forma de possessão coletiva. É mais preocupante. Porque a possessão é um fenômeno mais ou menos consciente. O possuído não sabe que ele está sendo tomado. Fala e age sem controle das suas próprias escolhas. Como os fenômenos de mediunidade tocam a fenômenos psíquicos, estudados em certa medida pela Psicologia, alguns chamam essas possessões midiáticas de “contágio psíquico”. Leonardo Torres defendeu uma tese de doutorado em Comunicação e publicou um livro sobre isso (Torres, 2021). É uma interessante contribuição dos estudos mediúnicos para os estudos midiáticos.

João Damasio: Acho magníficos seus estudos sobre a circulação das imagens da Pombagira (Dravet e Oliveira, 2015; Dravet, 2016). Ao relacioná-los a uma comunicação do feminino, o que veio primeiro em sua pesquisa: o interesse pela imagem da Pombagira levou ao feminino ou a investigação dessa comunicação levou à Pombagira?

Florence Dravet:  O que me chamou primeiro ao estudo das imagens do feminino e especialmente dessa imagem de mulher que é a pombagira foi o estigma de abjeção que ela carrega. Não se trata apenas de uma imagem de mulher, trata-se de uma imagem de mulher que é a escória da sociedade, o relegado, o abjeto. Nessa pesquisa fui muito motivada pelo livro de Catherine Clément e Julia Kristeva sobre “O feminino e o sagrado” (2001). E fiquei bastante intrigada com o fato da pombagira ter tanto espaço nos terreiros de Umbanda, sendo ela um ser tão à margem. Nos terreiros, ela é tratada como rainha, ela tem muito poder. Essa inversão do papel da imagem do feminino abjeto quando adentra o campo do sagrado me chamou a atenção e eu quis entender que fenômeno comunicacional era esse. Mais uma vez, entendendo a comunicação como campo do simbólico e da linguagem que atravessa os corpos. Nos terreiros, esse atravessamento do corpo se dá da forma mais direta possível: pela incorporação. Homens e mulheres se transformando por instantes em pombagiras, girando e gargalhando. Tem um valor estético em si muito prazeroso, diga-se. Do ponto de vista psicológico, é uma compensação psíquica de virtude terapêutica; do ponto de vista da produção simbólica, há um fenômeno que pode ir da estereotipia à amplificação mítica, o que permite atenuar o lado depreciativo das imagens e trabalhar melhor as representações individuais e coletivas em torno desse papel da mulher e do seu lugar na sociedade: a prostituta, a mulher de vida livre, que significado isso tem hoje? Já do ponto de vista da produção midiática há uma profusão de imagens e figurações em torno da pombagira; em outras culturas, para além do Brasil, ela tem outras características e outros nomes, mas também está muito presente. Essa produção toda atesta da sua função no imaginário e na cultura e do quanto essa imagem se encontra tensionada entre fascínio e escárnio.

João Damasio: Se por um lado você tematiza religiões e práticas esotéricas em determinadas pesquisas, em outras, os fazeres ladeados a esse universo parecem transpor a barreira de objeto e inspirar fundamentos epistemológicos para os estudos da comunicação: a noção de Exu Bará (Dravet, 2015), a incorporação (Dravet, 2016), o oracular (Dravet, 2019), o mítico, o sensível… Como se dá essa metodologia capaz de reconhecer os saberes das religiosidades populares e encontrar seus estímulos heurísticos?

Florence Dravet: Eu sou muito sensível aos fundamentos epistemológicos que determinam nossos olhares e nossas práticas científicas. Provavelmente por causa desse trânsito intercultural que tanto me marca. A cultura brasileira sempre me apareceu como muito mais do que uma cultura ocidental marcada por uma história de colonização/descolonização. E muito mais do que o cruzamento de três grandes matrizes, como muitas vezes se diz: a europeia, a indígena e a africana. Acho que nada disso alcança a riqueza da cultura e da episteme brasileira. Nisso, fico procurando as raízes dos fenômenos que observo. Tenho sempre a impressão que estamos passando ao largo de coisas muito importantes quando vivemos o Brasil sem transformar essas experiências em lições para o mundo, para a humanidade, para o bem-viver sobre a Terra. Sempre tive essa esperança, de que depois de Lévi-Strauss, deveria haver muito mais a se dizer a partir da vivência brasileira e que, obviamente, chegaria a hora desse dizer ser brasileiro, coletivo, potente e não mais um olhar estrangeiro. E sempre pensei também que esse dizer viria da experiência da cultura que continuamos chamando de popular (por falta de outro termo melhor), com sua arte e sua religiosidade misturadas nos seus corpos. E acho que isso está acontecendo. Hoje temos vozes fortes dizendo coisas muito potentes no Brasil e elas não estão vindo da elite. Só espero que as ciências humanas e sociais brasileiras não sucumbam à hegemonia científica neopositivista que está se abatendo mais uma vez com muita força sobre o mundo, mas essa é uma outra questão.

Acabei não falando da metodologia. Vou dizer de forma muito simples: se é para pensar a poesia, pensar com poesia. Se é para pensar o corpo, pensar com o corpo. Se é para pensar o feminino, pensar com a feminilidade. Isso abala os fundamentos epistemológicos. Mas é uma postura inclusiva, transdisciplinar, que coloca mais formas de acesso ao conhecimento para dentro do conhecimento. E, mesmo que tenhamos que pagar o preço da rejeição geral aos paradoxos e às antinomias, acho que vale a pena.

João Damasio: Atualmente, você compõe a coordenação do GT de Imagens e Imaginários Midiáticos da Compós. Ao seu ver, como têm se desenvolvido o conhecimento das relações entre o imaginário midiático e o imaginário religioso? Afinal, como o imaginário oferece aportes para compreender essa interface?

Florence Dravet: Os esforços no GT têm sido de aprofundar as relações entre os estudos do imaginário – em suas várias vertentes – e a produção midiática de imagens. O imaginário religioso está presente aí em duas medidas: primeiro, na medida em que as imagens religiosas têm uma presença forte na mídia. Verificamos no GT a presença anual de trabalhos voltados para essa força dos discursos religiosos nas imagens midiáticas. Muitas vezes essa força vem de um longo percurso histórico marcado por batalhas interreligiosas e pelas relações intrínsecas entre religião e política, encampadas pelas mídias. Nesses casos, os estudos do imaginário permitem compreender o enraizamento antropológico dessas imagens e o quanto, muitas vezes, novas formas de representações simbólicas são tributárias de imaginários atemporais – o imaginário antropológico – mas também do reforço dos imaginários sociais e dos discursos coletivos carregados de história e de significados a serem destrinchados.

A segunda medida dessa relação entre os estudos do imaginário e a produção midiática de imagens é que uma vertente importante dos estudos do imaginário se baseia no estudo dos mitos e das mitologias oriundos das religiões em suas diversas formas, das mais antigas e primitivas até os grandes monoteísmos e suas derivações. Não há como dissociar o imaginário antropológico ou simbólico das origens religiosas das imagens primordiais, por exemplo, presentes nas narrativas míticas e nas artes. Aqui o religioso toma o sentido da ideia de um homo religiosus segundo a qual não há cultura humana sem religiosidade e os grandes temas da humanidade são atravessados pelo sentido de religiosidade que carregam, independente do valor que lhe atribuímos: o tempo, a natureza, a morte, o sentimento amoroso, a organização social etc. Mas essa seara é cheia de armadilhas porque as teorias do imaginário têm múltiplas origens e o GT acolhe a todas, numa perspectiva inclusiva em que o debate é que permite o amadurecimento e o avanço das teorias. O que importa é sempre o rigor e a coerência interna no emprego das teorias. Ou seja, a interface entre imaginário, imagens midiáticas e religião gera reflexões intensas, necessárias, difíceis e promissoras para o avanço conjunto dessas três áreas de estudo.

João Damasio: Em seu projeto de pesquisa atual, são pensadas relações entre as inovações digitais e as formas míticas, com vistas a uma proposta de letramento digital transdisciplinar. Qual é a extensão dessa proposição de letramento? De algum modo, ela perpassa também os desafios que as religiões efetivamente enfrentam no ambiente digital?

Florence Dravet: Nessa pesquisa, a religião não é bem o objeto das minhas atenções e sim o mito numa perspectiva mais ampla, o mito enquanto matéria prima da narrativa. Estou interessada em identificar narrativas audiovisuais que se valem das possibilidades técnicas que o digital oferece – como o recurso a múltiplos canais, múltiplas linguagens e estruturas audiovisuais complexas, até mesmo transbordamentos midiáticos, transmidiáticos e outros fenômenos – mas que também se valem de elementos simbólicos de valor mítico e imaginário envolvente. Nessa abordagem recorro aos estudos de narratologia e experimento uma aproximação com os estudos do imaginário. A visada do letramento é posterior. Minha questão com o letramento é saber se é possível elaborar uma pedagogia do imaginário para as narrativas audiovisuais – que me parecem ser o sucedâneo da narrativa literária – de maneira a explorar o potencial por exemplo das séries e outras produções audiovisuais atualmente distribuídas e consumidas em plataformas de streaming. Estou preocupada com o fato do relato mítico estar se perdendo com a perda do literário entre as gerações mais novas. Hoje até pesquisadores em Comunicação, em Ciências Sociais e outras ciências humanas são capazes de considerar que o mito é simplesmente o oposto à verdade ou à realidade, ou de confundir mito com fake news. Pude constatar em uma revisão de escopo que fiz recentemente que é isso que se encontra na produção científica internacional e isso é grave (Dravet, 2022). Se não recuperarmos o valor de conhecimento do mito e toda a elaboração teórica que intelectuais do século XX fizeram, vamos continuar vivendo e educando as novas gerações para uma sociedade, no século XXI, incapaz de lidar com sua própria sombra. Já estamos vendo os efeitos dramáticos disso.

João Damasio: Me interesso bastante pelo método da aproximação de imagens, muito recorrente em seus trabalhos. Recentemente, você e o professor Ciro Inácio Marcondes (Dravet e Marcondes, 2021) ampliaram essa perspectiva da montagem aos mais diversos produtos comunicacionais, do tarô aos quadrinhos. Poderíamos dizer que toda produção midiática, dado o caráter intrinsecamente visual e dinâmico, trabalha com essa potência da imagem em alguma medida? Como pensar a diferença entre a montagem de um produto midiático (como os quadrinhos), a montagem que os algoritmos fazem e a montagem que um pesquisador pode fazer?

Florence Dravet: Sim. Esse trabalho foi apresentado na Compós em 2020 e depois foi revisto e publicado na revista Mídia e Cotidiano (2021). Fizemos mesmo essa aproximação entre formas oraculares de leitura de imagens como o tarô e possibilidades de leitura de produtos midiáticos como os quadrinhos. O que conduz o raciocínio é basicamente a ideia de Razão poética das imagens proposta por María Zambrano (1996) para quem as imagens têm um caráter de mobilidade, profundidade e multiplicidade que garante seu dinamismo e suas possibilidades estéticas e interpretativas. Mas também a noção de saber-montagem proposta por Warburg (2010) e retomada por Didi-Huberman (2013) que implica na constante retomada dos direcionamentos da leitura, com diversas orientações e modos dinâmicos de compor os sentidos, sentidos orientados para a imaginação. Obviamente, o pesquisador se torna responsável pela montagem ao absorvê-la nos seus métodos. Acho que também é importante lembrar que, embora tenhamos tratado de mídias com suportes visuais, o que importa na razão poética são as imagens em seu sentido simbólico que não se limitam às visualidades. Então a potência da imagem está para além de seu caráter visual, mesmo em uma sociedade midiática majoritariamente audiovisual.

Sim, a ideia de que toda produção midiática pode ser pensada a partir da potência simbólica das imagens é boa porque permite aprender muito sobre a cultura secretada pelas mídias e suas possibilidades criativas. Seus movimentos de estereotipia, simplificação e degradação da função simbólica não prescindem do seu contrário: um alto nível de abstração simbólica, de potência lúdica e de abertura imaginária. Mais uma vez, nessa perspectiva, é preciso trabalhar na tensão entre contrários e em uma relação dinâmica, portanto criativa com a linguagem. Nesse sentido, gosto da ideia proposta por Sloterdijk (2000) de que vivemos uma cultura “pós-literária”, porque ela inclui o literário e o poético na realidade midiática do nosso mundo. Os saberes literários – desde a oralidade até o romance moderno – nos fornecem ferramentas necessárias – mas não suficientes – para entender o potencial das imagens e de suas montagens nas diversas formas que elas têm tomado, seja com as mídias eletrônicas do século XX seja nos seus formatos digitais.

E por falar em “digital”, deixo de fora os algoritmos porque são modos de automação da linguagem que nos levam longe da criatividade poética, que ameaçam encerrar o humano em lógicas racionalistas empobrecedoras, pragmáticas e programáticas. Obedecem maquinalmente à lógica da repetição e das combinações. Não me parece que ao apontar “a montagem que os algoritmos fazem” você esteja falando da mesma noção de saber-montagem à qual Didi-Huberman se refere. Mas deve existir uma forma de poetizar esses algoritmos, retirá-los de suas funcionalidades maquínicas e colocá-los a serviço de experiências poéticas. Acho que a arte-mídia explora bastante isso e produz reflexões importantes para pensar o contemporâneo. Mas este já é outro território…

João Damasio: Peço licença para encaminhar o final desta entrevista de um modo atípico, com uma lembrança afetiva. Assisti uma palestra sua pela primeira vez em 2014, durante o Intercom Centro-Oeste na Universidade Católica de Brasília (UCB). Eu havia acabado de concluir minha monografia da graduação em jornalismo sobre “O mito da rede” para pensar as potências do imaginário de jovens ambientalistas que convocavam as redes digitais e o modelo das organizações em rede, relacionando-os à imagem da teia da vida. Tive o prazer de ter sido orientado nessa ocasião por um professor muito afetivo e atento às questões do imaginário, chamado Marcus Minuzzi. Lembro que, naquela ocasião em Brasília, você foi a segunda referência que tive nesse sentido. Me pareceu uma raridade. Como você vê atualmente as aberturas para ensino e pesquisa do imaginário e das religiões populares no Brasil? Fique à vontade também para quaisquer destaques no final dessa entrevista.

Florence Dravet: Sem rodeios, não vejo muitas aberturas hoje para o ensino e a pesquisa do imaginário e das religiões populares no Brasil. Esse movimento foi interrompido. Hoje, vejo iniciativas isoladas, ainda dispersas, que funcionam no modo da resistência, da sobrevivência. Vejo ideias potentes emergindo. E vejo que essas ideias e iniciativas são celebradas em vários nichos e segmentos. Mas na pesquisa, é cada vez mais difícil obter recurso para abordagens que não tenham aplicabilidade imediata. Somos avaliados pelo impacto de nossas produções. As Ciências Humanas e Sociais que funcionam em um registro diferente das Ciências da Vida por exemplo estão sofrendo com escassez de recurso e de espaço tanto para publicações científicas consideradas de alto nível, quanto para divulgação científica junto à população. Nesse contexto, o que sobra? Sobra o estímulo da vontade de transformação e do entusiasmo pelas ideias, que são dois elementos que têm a vantagem de serem contagiantes, não nas relações com os níveis frios e calculistas da lógica financeira que move os grandes poderes do mundo, mas na relação imediata com leitores, ouvintes, alunos, colegas pesquisadores, com as pessoas das comunidades envolvidas com esse tipo de estudo: artistas, agentes sociais, culturais, etc. É nesses ambientes que vale a pena apostar e continuar trabalhando. Eles existem. E são muito potentes. Além de que, é preciso abraçar as utopias, acreditar nas metamorfoses e em seus ritmos lentos. Como diz Morin: “os inícios são de uma modéstia surpreendente” (2021), então perante o poder dos algoritmos, fico com a potência do imaginário, das brechas, dos desvios. É nessas aberturas que temos que apostar.

Quero agradecer pela oportunidade de tratar desses assuntos e pelo seu olhar cuidadoso sobre meu trabalho e na formulação das perguntas. Isso também é uma raridade. Obrigada.

REFERÊNCIAS

Baitello Jr., N. O pensamento sentado. Sobre glúteos, cadeiras e imagens. São Leopoldo: Unisinos, 2012.

Clément, C. e Kristeva, J. O feminino e o sagrado. Rio de Janeiro: Rocco, 2001.

Didi-Huberman, G. Prefácio. In: MICHAUD, P – A. Aby Warburg e a imagem em movimento. Rio de Janeiro: Contraponto, 2013.

Dravet, F. e Oliveira, L. B. Novas imagens da pombagira na cultura pop: símbolos, mitos e estereótipos em circulação. Comunicação, mídia e consumo, São Paulo, v. 12, n. 35, set/dez, 2015, p. 49-70.

Dravet, F. Corpo, linguagem e real: o sopro de Exu Bará e seu lugar na comunicação. Ilha do Desterro, Florianópolis, v. 68, n. 3, set/dez 2015, p. 15-25.

Dravet, F. Comunicação e circularidade – estudo de comunicação feminina a partir do giro da pombagira. In: Dravet, F. et al. (orgs.). Pombagira: encantamentos e abjeções. Brasília: Casa das Musas, 2016, p. 95-115.

Dravet, F. O imaginário ou a comunicação entre corpo e linguagem: problematização do fenômeno da incorporação no Brasil. Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 15, n. 30, jul/dez 2016, p. 287-306.

Dravet, F. Entrever no (in)visível: imaginação, comunicação oracular e potência criativa. E-compós, v. 22, jan/dez 2019, p. 1-20.

Dravet, F. e Inácio Marcondes, C. A dimensão aurática das imagens-sonho no tarô e nas histórias em quadrinhos – estudo das tiras de Gasoline Alley. Revista Mídia e Cotidiano, vol. 15, n. 2, 2021, p. 51-74.

Dravet, F. M. El mito y lo digital en la ciencia de la comunicación: una revisión de alcance. Anuario Electrónico de Estudios en Comunicación Social – Disertaciones, [S. l.], v. 15, n. 1, 2021. DOI: 10.12804/revistas.urosario.edu.co/disertaciones/a.10501. Disponível em: https://revistas.urosario.edu.co/index.php/disertaciones/article/view/10501. Acesso em: 31 oct. 2021.

Morin, E. e Sloterdijk, P. Tornar a terra habitável. Natal: EDUFRN, 2021.

Silva, M. R. Imagem, imaginário e (in)visibilidade da Umbanda e das religiões mediúnicas no Brasil – entrevista com Maurício Ribeiro da Silva. [01/10/2020]. Mídia, Religião e Sociedade (site). Entrevista concedida a João Damasio. Disponível em: https://midiareligiaoesociedade.com.br/imagem-imaginario-e-invisibilidade-da-umbanda-e-das-religioes-mediunicas-no-brasil-entrevista-com-mauricio-ribeiro-da-silva/. Acesso: 08 set. 2021.

Sloterdijk, P. Regras para o parque humano. Uma resposta à carta de Heidegger sobre o humanismo. São Paulo: Estação Liberdade, 2000.

Torres, L. Contágio psíquico. A loucura das Massas e suas Reverberações na Mídia. São Paulo: Eleva Cultural, 2021.

Warburg, A. Atlas Mnemosyne. Madrid: Akal, 2010.

Zambrano, M. Filosofía y poesía. Cidade do México: FCE, 1996.

 

PARA CITAR ESTA ENTREVISTA

DRAVET, Florence. : A dimensão mítico-poética da existência, das linguagens e das religiões populares no Brasil – entrevista com Florence Dravet. [08/11/2021]. Mídia, Religião e Sociedade (site). Entrevista concedida a João Damasio. Disponível em: .  Acesso: (data)

SOBRE A ENTREVISTADA

Florence Dravet é professora nos cursos de Comunicação da Universidade Católica de Brasília, membro do núcleo docente permanente do Mestrado Inovação em Comunicação e Economia Criativa e do Programa de Mestrado e Doutorado em Educação. É doutora em Didactologia das Línguas e Culturas, com tese em Comunicação Intercultural, na Universidade de Paris III – Sorbonne-Nouvelle (2002). Fez pós-doutorado no Centro de Investigação em Arte e Comunicação (CIAC) na Universidade do Algarve em Portugal (2021) e pós-doutorado em Comunicação, pela Universidade de Brasília (2011). Coordena o grupo de pesquisa Travessia – Transdiciplinaridade e Criatividade do DGP/CNPq e é editora da revista ESFERAS, revista dos Programas de Pós-graduação em Comunicação do Centro-Oeste.

Conheça textos de <<<Florence Dravet>>> publicados no Mídia, Religião e Sociedade.

SOBRE O ENTREVISTADOR

Foto de João Damasio da Silva NetoJoão Damasio é doutorando em Ciências da Comunicação (Unisinos), mestre em Comunicação (UFG) e graduado em jornalismo (Faculdade Araguaia), além de técnico em Sistemas de Informação e em Interpretação Teatral. Bolsista Capes Proex, atualmente desenvolve a pesquisa de tese sobre imaginário e midiatização do espiritismo. Integra o Laboratório de Circulação, Imagem e Midiatização (Lacim), o Grupo de Pesquisa em Midiatização e Processos Sociais (Unisinos) e o Grupo de Pesquisa Interdisciplinar sobre o Espiritualismo Brasileiro e Internacional (Interespírito, UFG e PUC-GO).

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1 Comment

  1. GUSTAVO DE CASTRO DA SILVA disse:

    Excelente entrevista, parabéns. A ideia de que “Se não recuperarmos o valor de conhecimento do mito e toda a elaboração teórica que intelectuais do século XX fizeram, vamos continuar vivendo e educando as novas gerações para uma sociedade, no século XXI, incapaz de lidar com sua própria sombra” é muito bem apontada e precisa.

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