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Por Jênifer Rosa de Oliveira (mestra em Comunicação: Umesp)

O livro“Midiatização da religião: Processos midiáticos e a construção de novas comunidades de pertencimento” é resultado da pesquisa de doutorado do sacerdote diocesano Paulo Roque Gasparetto, defendida junto ao programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Em seu percurso, o autor buscou investigar as “comunidades de pertencimento” resultantes do fenômeno da midiatização da religião. Para tal, o autor analisou o conteúdo programático de diferentes emissoras de televisão católicas do Brasil e como esses conteúdos eram reapropriados pelos fieis em seu mundo da vida. A obra, dividida em três partes, apresenta importantes articulações teóricas e metodológicas para a observação do entrecruzamento dos campos midiático e religioso.

Na primeira parte do livro, o autor retoma conceitos clássicos da sociologia como “comunidade”, “sociedade” e “campo social” e como eles são atualizados pela mídia na sociedade contemporânea. De modo breve, a partir da exposição do autor, podemos descrever cada um deles da seguinte maneira: por comunidade, podemos entender as relações sociais baseadas nos afetos, como a família, por exemplo, ao contrário da sociedade, que é estruturada pelas relações baseadas na razão, como no Estado burocrático. Já os “Campos Sociais” surgem com a secularização, que proporcionou a autonomia dos campos de saberes, que passaram a se constituir a partir de seus próprios sistemas de normas, mas de maneira dinâmica e interagindo com os outros campos. Nesse sentido, Religião e Mídia são apresentadas como campos sociais.

O autor explica que, para que um campo legitime sua existência perante a sociedade e os demais campos, a visibilidade é fundamental, o que acaba sendo conferido pelo campo midiático. A mídia passa a promover novas formas de organização das instituições, e, no tocante ao campo religioso, acaba por propor um novo modo de funcionamento da comunidade religiosa (reencantamento do mundo). A mídia deixa de ser um instrumento de registro da realidade para se transformar em um dispositivo produtor da realidade.

Segundo o autor, esses novos protocolos técnicos midiáticos adaptam as mensagens religiosas para as exigências midiáticas e criam um mercado simbólico que recoloca os fiéis – aqui transformados em militantes, autores de suas próprias práticas – no lugar de pertença. A cultura midiática atuaria no sentido de criar e recriar as relações humanas a partir de uma experiência televisiva.

Na segunda parte do livro, o autor busca trabalhar o conceito de dispositivo a partir da concepção de diferentes autores. A abordagem propõe uma compreensão multidimensional para o conceito: não apenas tecnológico, nem pela ação dos sujeitos, nem pelo discurso, mas sim sócio-técnico-discursivo.

O dispositivo então é apresentado como algo complexo, que envolve tecnologia, linguagem, práticas, discursos, representações, relações sociais. O autor concebe os dispositivos como sistemas de regulação com operações próprias, que realizam um novo tipo de trabalho do registro simbólico.

Na obra, a mídia é entendida como um dispositivo onde estão implicados todos os elementos que constituem os processos de interação mediada, sendo a televisão o eixo central da comunicação contemporânea, por sua significação na legitimação e visibilidade dos demais campos sociais, em especial o religioso. Isso porque o exercício da discursividade religiosa deixa de se fazer segundo regras presenciais e passa a operar por operações midiáticas, com o advento dos programas de TV religiosos. Para o autor, essas novas comunidades que surgem com essas novas religiosidades são consequência do funcionamento do dispositivo; o efeito do dispositivo é a comunidade de pertencimento.

Na terceira – e mais extensa – parte do livro o autor busca ver, por meio de uma ampla pesquisa de recepção, as práticas do dispositivo que colocam os fieis em ação na constituição da comunidade de pertencimento. São elas: práticas de adesão, prática de socialização, prática de treinamento, prática de exposição, prática de rituais presenciais, práticas de comercialização, prática de consumo e prática de visibilização.

O cuidadoso procedimento metodológico adotado pelo autor em sua pesquisa de campo se deu em três etapas: 1ª) Observação sistemática da programação das principais TVs católicas do país, a saber: Rede Vida de Televisão, TV Canção Nova, TV Século 21, TV Aparecida e TV Imaculada Conceição, da Milícia da Imaculada; 2ª) Pesquisa exploratória para saber como as pessoas constroem seus vínculos com os programas, as operações de seleção e leitura destes e a relação entre a oferta programática com o mundo da vida; 3ª) Observação do processo de apropriação do conteúdo, no qual a militância se dá a ver.

Nesse percurso metodológico o autor fez observações interessantes, como, por exemplo, a de que as TVs analisadas se diferenciam umas das outras porque, enquanto umas enfatizam mais a ambiência midiática, como a Canção Nova, outras enfatizam o conteúdo religioso. Também observou que os programas católicos se diferenciam pouco dos programas das igrejas evangélicas pentecostais.

Outro ponto interessante que o autor coloca é o de que os programas que abordam problemas do mundo da vida (desemprego, abandono, doença), e a santa missa são os mais assistidos. Esse último traz a prática religiosa para dentro de casa, apontando para o surgimento de um novo modelo de viver a religião, em que a identidade não é mais construída a partir da tradição, mas da midiatização que reorganiza os grupos.

Nesse sentido da criação de novas práticas, o autor ainda menciona que o processo de apropriação dos conteúdos se mostra como uma constante negociação entre produção e recepção. Os efeitos produzidos pelos programas não necessariamente são os previstos pela produção, uma vez que os fieis reelaboram as mensagens religiosas de acordo com suas lógicas e com o momento vivido.

A obra de Paulo Roque Gasparetto, “Midiatização da religião: Processos midiáticos e a construção de novas comunidades de pertencimento”, certamente, é uma grande contribuição para compreendermos o fenômeno da midiatização da religião no cenário brasileiro e os desafios da Igreja Católica na contemporaneidade.

 

Detalhes Técnicos

Título: Midiatização da religião: Processos midiáticos e a construção de novas comunidades de pertencimento

Autor: Paulo Roque Gasparetto

Editora: Paulinas

ISBN: 978-85-356-2813-5
Número de Páginas: 208
Edição: 1
Idioma: Português
Formato: 14x21x cm

Peso: 220g

Ano de lançamento: 2011

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Sobre a autora da resenha

Foto de Jênifer Rosa de OliveiraJênifer Rosa de Oliveira é mestre em Comunicação pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), na linha Comunicação Midiática nas Interações Sociais. Graduada em Comunicação Social – Jornalismo e Relações Públicas – pela UFMG e em Tecnologia em Radiologia pelo CEFET-MG. Atualmente dedica-se a pesquisas que envolvam as interfaces entre mídia e religião no segmento evangélico.

 

 

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