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Entrevista: Magali Cunha fala sobre o novo GP de Comunicação e Religião da Intercom

Foto da Dra. Magali do Nascimento Cunha
05/02/2018
Por Marco Túlio de Sousa (Doutorando – Unisinos) e Jênifer Rosa de Oliveira (mestra – Umesp)
Foto de Magali do Nascimento Cunha

Profa. Dra. Magali do Nascimento Cunha.

A Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom) aprovou este ano a criação de um novo Grupo de Pesquisa (GP) dedicado às pesquisas de Comunicação e Religião. O GP contará com a coordenação da professora Dra. Magali do Nascimento Cunha que nos contou em entrevista por email como foi o processo, os temas que se espera discutir nos encontros e suas expectativas.

Mídia, Religião e Sociedade (MRS): Professora, primeiramente parabenizamos a senhora e a todos que se envolveram na criação deste novo espaço de interlocução para os pesquisadores de comunicação e religião. Gostaríamos saber de onde partiu essa iniciativa.

Magali do Nascimento Cunha: É uma demanda antiga de pesquisadores que participam da Intercom, cujo foco de pesquisa é comunicação e religião. Ela já foi liderada por outros colegas em vários momentos, sem um desfecho positivo. Desta vez fomos beneficiados pelo fato de a proposta ter sido apresentada em um momento de transição na direção da Intercom e de construção de novas frentes de atuação, o que tornou possível a aprovação da proposta pela nova diretoria.

MRS: Como foi o processo de criação do GP?

Magali do Nascimento Cunha: Nos anos 90, quando a Intercom tinha GTs (Grupos de Trabalho) havia um intitulado “Comunicação e Religiosidade”, coordenado pelo Prof. Nivaldo Pessinatti. Eu mesma participei e havia boa articulação. Quando Pessinatti esteve impossibilitado de levar a coordenação adiante, houve processo de reorganização dos GTs em Núcleos de Pesquisa e o grupo acabou extinto. De lá para cá foram mais de 20 anos com esta lacuna, com pesquisadores ligados à Intercom apresentando suas pesquisas em comunicação e religião nos demais grupos, onde havia afinidade temática, mas desarticulados, sem interlocução nos temas específicos. Depois de, pelo menos, três tentativas de reativação do grupo nesse período, retomamos o processo em 2017, seguindo todos os trâmites estabelecidos pela Intercom para criação de grupos, com grande suporte tanto de pesquisadores proponentes – gente de grande reconhecimento na área da Comunicação no Brasil – quanto de sócios da entidade apoiadores da proposta, lideranças históricas e em destaque na entidade.

MRS: Por que só agora a Intercom abriu este espaço para as pesquisas dessa área?

Magali do Nascimento Cunha: Como já abordei, foi um momento propício em termos operacionais mas, é fato, que “comunicação e religião” é hoje uma ênfase de pesquisa que desafia não só a área da comunicação mas também as ciências humanas e sociais. A presença de grupos religiosos e do religioso nos distintos processos comunicacionais é elemento hoje que não pode ser desconsiderado pela academia e certamente a diretoria da Intercom foi capaz de avaliar isto e colocar a entidade em sintonia com esta demanda.

MRS: Que tipo de trabalhos se espera receber? Há alguma recomendação para os pesquisadores que queiram participar?

Magali do Nascimento Cunha: O GP tem a principal demanda que é o encontro no Congresso Nacional mas também a articulação de pesquisas na temática na forma de eventos alternativos ao congresso e publicações. No tocante aos trabalhos nos congressos e encontros poderão abordar os temas:  Comunicação e Catolicismo; Comunicação e Protestantismo; Comunicação e Pentecostalismo; Comunicação e Islamismo; Comunicação e Religiões de Matriz Africana; Comunicação e Espiritismo; Comunicação e Religiões Indígenas; Comunicação e Judaísmo; Comunicação, Religião e Política; Produção de conteúdo religioso nas mídias; Recepção de conteúdo religioso nas mídias; Ciber-Religião; Mídias, Religiões e Cultura; Midiatização e Religiões; e outras temáticas afins.

MRS: Tanto os encontros nacionais quanto os regionais da Intercom contarão com o GP de Comunicação e Religião?

Magali do Nascimento Cunha: O Congresso Nacional por certo e para os regionais dialogaremos sobre as possibilidades.

MRS: Nos últimos anos temos presenciado um crescimento da produção de trabalhos sobre Comunicação e Religião na nossa área. Destacamos a publicação de dossiês nas revistas Comunicação e Informação (2015, n 2 e 2016, n 2), Questões Transversais (2017, n9), Anuário Unesco/ Metodista de Comunicação Regional (2016) e, mais recentemente, o último número da revista francesa Essachess (2017, n3). Além disso, vale lembrar a realização de eventos específicos, como o Eclesiocom (Conferência Brasileira de Comunicação Eclesial), e outros em que há ampla abertura para o tema, como o Seminário Internacional de Midiatização e Processos Sociais da Unisinos. A criação do GP da Intercom indica a consolidação das pesquisas em Comunicação e Religião no campo da Comunicação no Brasil? Como este novo GP espera contribuir para as investigações que trabalham nesta interface?

Magali do Nascimento Cunha: Nas últimas décadas, um novo caminho tem sido aberto para estudos para além da produção midiática, com pesquisas sobre recepção de conteúdos e sobre as representações das religiões em mídias não-religiosas (noticiário e produções de entretenimento). Essas pesquisas inscrevem novas e ricas possibilidades de investigação, para além da clássica compreensão do fenômeno das igrejas na mídia como produtoras e veiculadoras de mensagens. Mas há, ainda, lacunas no que diz respeito a abordagens quanto à relação das religiões não-cristãs com as mídias no Brasil, em especial quando se toma em conta a ampla produção editorial de grupos espíritas ou as representações das religiões de matriz africana nas mídias de entretenimento, por exemplo. É fato que o Cristianismo é religião majoritária no País, e que são as igrejas que ocupam maior espaço na produção e nas representações midiáticas, mas o traço da diversidade cultural que permeia a interação públicos-mídias ressalta a dimensão do pluralismo religioso brasileiro, processo que merece ser interpretado. O lugar do religioso, para além da religião institucionalizada, na produção e na recepção midiática é também elemento importante nas reflexões acadêmicas, e isto envolve certamente os processos de comunicação popular, das mídias alternativas, e aqueles que dizem respeito ao face a face, ao presencial, ao relacional. Entendo que o GP pode contribuir com a socialização de pesquisas realizadas, Brasil afora, e que tragam busquem preencher estas lacunas.

MRS: Além da Intercom, outro importante espaço de interlocução para as pesquisas na área da Comunicação é a Compós. Há intenção de se criar algum GT para esta temática nos eventos dessa associação?

Magali do Nascimento Cunha: Já participei de diálogos sobre isto mas eles se deram de forma bastante incipiente. Na minha avaliação, dada a força da interface comunicação e religião, seria imprescindível que a Compós tivesse um GT que garantisse interlocução envolvendo as pós-graduações.

SOBRE A ENTREVISTADA

Magali do Nascimento Cunha é doutora em Comunicação pela Universidade de São Paulo (2004), Mestre em Memória Social pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (1997) e Graduada em Comunicação Social (Jornalismo) pela Universidade Federal Fluminense (1985). É líder do Grupo de Pesquisa Mídia, Religião e Cultura (MIRE), coordenadora da Conferência Brasileira de Comunicação Eclesial (ECLESIOCOM) e do Gp de Comunicação e Religião da Intercom. Tem experiência nas áreas de Comunicação e Cultura, Comunicação e Imaginário e Comunicação e Religião, com ênfase nos seguintes temas: comunicação, cultura, religião, evangélicos, política, análise do discurso, mídia. Integra a Associação Internacional Mídia, Religião e Cultura (International Association Media Religion and Culture).

Confira textos de <<<Magali do Nascimento Cunha>>> publicados no Mídia, Religião e Sociedade.

ENTREVISTADORES

Marco Túlio de Sousa – Doutorando em Comunicação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), mestre em Comunicação pela UFMG e graduado em Comunicação (Jornalismo) pela UFJF. Criador do grupo “Mídia, Religião e Poder” no facebook e do blog “Mídia, Religião e Sociedade”.

Jênifer Rosa de Oliveira – Mestre em Comunicação pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), graduada em Comunicação Social – Jornalismo e Relações Públicas – pela UFMG e em Tecnologia em Radiologia pelo CEFET-MG. Atualmente dedica-se a pesquisas que envolvam as interfaces entre mídia e religião no segmento evangélico.

 

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