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Conquistados, eles conquistam: transformações do segmento evangélico brasileiro e suas relações com a mídia – Entrevista com Magali do Nascimento Cunha (parte 2: o envolvimento com a política)

Foto da Dra. Magali do Nascimento Cunha
22/05/2017
Por Marco Túlio de Sousa
Doutorando em Comunicação (Unisinos)
Foto de Magali do Nascimento Cunha

Profa. Dra. Magali do Nascimento Cunha (UMESP).

Hoje o Mídia, Religião e Sociedade publica a segunda parte da entrevista com a professora Dra. Magali do Nascimento Cunha. Na primeira parte, ela abordou o processo de constituição da cultura gospel e suas transformações mais recentes. De acordo com a pesquisadora, estamos cada vez mais o segmento religioso evangélico não só se vê enredado pelo mercado, mas também lança mão de estratégias comerciais que visam ampliar seu papel na esfera pública brasileira. Simultaneamente, pela internet, fiéis das instituições mais diversas sentem-se à vontade para manifestar suas opiniões revelando, muitas das vezes, desacordos com as autoridades eclesiásticas.  Tais discordâncias, a consolidação de leigos como celebridades religiosas na web e a formação de comunidades virtuais de evangélicos desigrejados nos sugerem que as igrejas não têm mais o controle do sagrado como antes.

Em outra frente, igrejas pentecostais investem na eleição de representantes na política a fim de levar adiante projetos de seu interesse. É sobre a relação dos evangélicos com a política que a professora trata na segunda parte da entrevista concedida ao Mídia, Religião e Sociedade. Confira!

 

Mídia, Religião e Sociedade (MRS): Ricardo Mariano (1999) na obra “NeoPentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil” observa que as primeiras igrejas pentecostais a se instalarem no país tinham uma postura de recusa da política, expressando sua relação com esse campo por meio da máxima “crente não se mete com política”, como a senhora também destacou anteriormente. Depois, essa expressão foi substituída pela “irmão vota em irmão”, demarcando outro modo de posicionamento desse grupo em relação à política. A que se deve essa nova postura que hoje reflete no crescimento da bancada evangélica?

Magali do Nascimento Cunha: Isto, como dito antes (na primeira parte), está relacionado à busca de ocupação do espaço público pelas igrejas, em especial a partir dos anos 1990. Com o Congresso Constituinte eleito em 1986 houve uma mobilização de igrejas para terem representantes no Congresso que votaria a nova Constituição depois da ditadura civil- militar. Foram 32 eleitos naquele pleito. Configurou-se então uma nova força não só política, mas sociocultural, com o crescimento intenso dos evangélicos a partir dos anos de 1990, que buscaram ocupar espaços na esfera pública, em especial os grupos pentecostais, com aquisição de mídias e projetos políticos muito claros – caso da Igreja Universal do Reino de Deus e da Assembleia de Deus.

Depois de altos e baixos em termos numéricos, desde o Congresso Constituinte, decorrentes de casos de corrupção e fisiologismo, a bancada evangélica se consolidou como força, o que resultou na criação da Frente Parlamentar Evangélica (FPE) em 2003.

Tudo isso é resultante do crescimento das igrejas evangélicas, em especial as pentecostais, e do desejo desses grupos de mais visibilidade e influência social. Soma-se a isso o claro projeto político de igrejas como a Universal do Reino de Deus e a Assembleia de Deus de ocupação e criação de partidos e busca de mais poder decisório na esfera pública.

MRS: Hoje, mais de dez anos após a defesa da sua tese que mudanças nessa cultura gospel podemos observar?  

Magali do Nascimento Cunha: A principal delas é a diluição ainda maior das fronteiras entre o sagrado e o profano. As grandes mídias (seculares) passaram a interagir com os evangélicos neste processo de conquista de espaço na esfera pública (no mercado e na política), o que inclui a produção de programas, ou parcelas deles, para disputar audiência cristã: espaço para a música cristã contemporânea (“gospel”) e seus artistas, patrocínio de festivais e megaeventos de rua, veiculação de programas de entretenimento com temática religiosa (inclusive com a criação de personagens para telenovelas). Os evangélicos também passam a ter mais espaço na cobertura jornalística que envolve religião. Com isto, consolida-se a figura das celebridades religiosas do segmento. É um movimento novo, que deve ser monitorado, e que introduz um padrão da fé evangélica que forma boa gente, estimula a caridade, mas é conservador em diversos aspectos socioculturais, em especial quanto à sexualidade e o lugar da mulher na sociedade.

Há ainda um fenômeno mais recente e instigante: a popularização das mídias digitais que faz parte do processo de ampliação de espaço e visibilidade pública dos evangélicos. A dimensão da participação e da transformação dos receptores em emissores, por meio de processos de interação possibilitados pelas novas mídias, especialmente, pela internet, mudou radicalmente o quadro da relação igrejas-mídias. É desafio a ser respondido enumerar todas as páginas na internet ligadas a grupos cristãos, listadas pelos mecanismos de busca na rede: elas são milhares e a relação inclui desde as institucionais, de todas as denominações cristãs, passando pelas mais artesanais, montadas por grupos de igrejas, até as mais sofisticadas e mais acessadas pertencentes a grupos musicais ou grupos de mídia.

Quando pensamos nas mídias sociais, a infinidade de articulações e espaços é nítida. Igrejas e grupos cristãos perceberam que as mídias podem não apenas apresentar o Evangelho e dar visibilidade, mas podem articular, promover socialidade, firmar comunidade. Isto passou a dar novo caráter para a relação das igrejas com as mídias. Até porque, com a ideia de convergência de mídias (TV, rádio, computador e telefone celular conectados), um programa já não é só projetado para emitir, mas tem a dimensão da interação estimulada. Abriu-se mais espaço para encontros, trocas de ideias, debates, informações, divulgações. A dimensão da comunicação como interação/comunhão fica potencializada. A socialidade promovida pelas mídias digitais facilita a socialidade cristã e a evangelização.

Por outro lado, as igrejas passam a não ter mais o controle do sagrado e da doutrina como tinham antes. A abertura para a participação e para que qualquer pessoa que professe uma fé, vinculada ou não formalmente a uma igreja, manifeste livremente suas ideias, reflexões e opiniões, tirou o controle dos conteúdos disseminados das mãos das lideranças. Basta ter um simples blog, nos fartos espaços gratuitos, ou uma conta sem custo nas mais populares redes sociais digitais, e o espaço está garantido para a livre manifestação.

Dessa forma, doutrinas e tradições teológicas passaram a ser relativizadas, bem como a autoridade dos líderes clássicos – pastores e presidentes de igrejas.  Questionamentos de afirmações confessionais são pregados, críticas são explicitadas. Esta é uma característica forte dos espaços midiáticos digitais: as pessoas se sentem liberadas e encorajadas para expressarem o que nunca expressariam num encontro face a face. Processo que ainda faz emergir das mídias novas autoridades religiosas – celebridades (padres e pastores midiáticos, cantores gospel), blogueiros – que se tornam referência para o modo de pensar, agir, ver o mundo, de muitos cristãos.

A perda do controle dos discursos e dos símbolos religiosos por parte das autoridades eclesiásticas tem também aberto espaço para experiências lúdicas nas mídias digitais que expressam elementos clássicos da fé em espaços de entretenimento e de humor. Isso é bem recebido por alguns públicos e gerador de incômodo em outros, o que tem potencializado muitas polêmicas nas redes digitais.

Outro elemento que se destaca neste processo de “ocupação cristã das mídias digitais” é o espaço conquistado pelos desvinculados do ponto de vista eclesiástico – os chamados sem-igreja ou desigrejados. Pessoas que professam a fé cristã e que por alguma razão decidiram pela desvinculação institucional, mas desejam continuar partilhando da fé em comunidade e expressando publicamente reflexões, ideias, experiências, opiniões.  Se isso já acontecia no nível presencial com as comunidades alternativas que sempre existiram, com as mídias digitais foi ampliada a possibilidade de encontro e interação dessas pessoas, com a formação de comunidades virtuais.

Vale destacar ainda que na segunda década dos anos 2000 temos uma nova face do conservadorismo religioso, um neoconservadorismo, que emerge como reação a transformações socioculturais que o Brasil tem experimentado, em especial a partir dos anos 2002, com a abertura e a potencialização de políticas do governo federal voltadas para direitos humanos e gênero. O “neo” se deve à visibilidade mais intensa de lideranças evangélicas que se apresentam como pertencentes aos novos tempos, em que a religião tem como aliados o mercado e as tecnologias, mas que se revelam defensoras de posturas de um conservadorismo explícito. Lideranças midiáticas se fortalecem na esfera pública, entre pastores, pastoras, políticos, cantores gospel e novas celebridades religiosas (blogueiros e youtubers, por exemplo, sinalizando a força da internet, como eu já mencionei). Além da visibilidade midiática que as transforma em autoridades/referências religiosas que ultrapassam até mesmo os arraiais evangélicos, essas pessoas têm em comum, discursos de rigidez moral e de conquista de poder na esfera pública.

MRS: Eu gostaria que a senhora falasse mais um pouco deste assunto. Tem-se uma visão da bancada evangélica como um grupo homogêneo, que atua em bloco. Entretanto, há representantes de diferentes instituições religiosas com projetos distintos atuando ali. Comenta-se muito, por exemplo, dos vínculos estreitos da Igreja Universal com o PRB. Queria que a senhora falasse um pouco das diferenças nas atuações dos grupos costumeiramente enquadrados no que chamamos de bancada religiosa.

Magali do Nascimento Cunha: Não podemos falar que os deputados e senadores no Congresso representam os evangélicos. Primeiro porque “evangélicos” é um segmento social de uma diversidade que em poucos minutos já não se pode explicar. Falamos de uma enorme gama de grupos desde os históricos ligados à Reforma Protestante, os pentecostais relacionados aos movimentos avivalistas nos Estados Unidos e na Escandinávia, aos grupos independentes nascidos no Brasil desta ou daquela experiência e que se concretizam em incontáveis denominações. Temos no Congresso Nacional parlamentares ligados a 26 igrejas representadas, entre elas 18 são pentecostais.

A Igreja Universal do Reino de Deus e a Assembleia de Deus são as duas grandes forças desse grupo, com 40% dos deputados. Essas duas denominações evangélicas têm um projeto político claro e podemos dizer que os seus deputados as representam.

A outra fatia de 60% está distribuída por 22 diferentes denominações, a grande maioria delas com apenas um parlamentar eleito. Boa parte está lá, não representando o seu grupo, mas com um projeto pessoal. Só estes dados já jogam por terra a tese de que há uma representação.

Tamanha diversidade dos evangélicos no Brasil, e diversidade que está no interior dos próprios grupos na sua singularidade, torna impossível que falemos de representação. Esta tese é uma armadilha de algumas lideranças em busca de poder político e religioso na qual as mídias noticiosas são capturadas e a reproduzem sem reflexão e pesquisa.

MRS: Muito se falou na mídia que a eleição de lideranças religiosas se restringiria ao legislativo, onde o voto de um grupo específico seria suficiente para garantir a ocupação de cargos políticos. A eleição de Marcelo Crivella como prefeito de uma capital da importância do Rio de Janeiro destoa desta tese. Esse resultado deve ser visto como uma nova tendência ou uma exceção?

Magali do Nascimento Cunha: Os evangélicos sempre sonharam em eleger um presidente da República. Este sonho sempre apareceu em discursos desde o início do século XX, e mais recentemente, se concretizou com as candidaturas de Anthony Garotinho (2002), Marina Silva (2010 e 2014) e Pastor Everaldo (2014). A força da bancada evangélica e o sucesso eleitoral de Crivella no Rio só potencializam este projeto para alguns grupos. Em novembro passado, o presidente licenciado do PRB e ministro da Indústria e Comércio do governo Temer, bispo da IURD Marcos Pereira, afirmou em entrevista à revista Época: “O Brasil elegeu um ateu [referência a Fernando Henrique Cardoso, que se diz agnóstico], católicos, uma mulher. É da democracia. Não é que os evangélicos vão eleger um presidente da República, é diferente. Eu não tenho dúvida de que um dia um evangélico será eleito presidente da República. E ele, seja quem for, vai ser eleito pelos evangélicos, pelos católicos, pelos macumbeiros, pelos ateus. Você acha que em 1,7 milhão de votos do Crivella só tem evangélicos? De jeito nenhum!”.

Quem disse que a participação evangélica na política se restringiria ao legislativo nunca leu este processo com a complexidade que ele exige. Crivella não é o primeiro prefeito evangélico de uma capital. De cidades menores são inúmeros os prefeitos. Iris Resende, batista, e Anthony Garotinho, presbiteriano, já governaram estados, bem como Benedita da Silva, que era vice do último.  Sem falar dos governadores e prefeitos evangélicos nomeados para estados e municípios durante a ditadura civil-militar. Crivella chega com força pela conjuntura e, claro, a IURD e os grupos evangélicos na política vão se valer disto para seus projetos futuros.

MRS: Os setores evangélicos ligados às pautas conservadoras são os que estão mais presentes na mídia brasileira, o que leva muitas vezes à sensação de que este segmento religioso se resume a estes atores. Entretanto, há também vozes dissonantes, igrejas e fieis de postura mais progressista e (ou) de esquerda. O que esses grupos tem feito para se fazerem ouvidos? Que pautas costumam defender?

Os evangélicos progressistas são silenciados pelas grandes mídias, por falta de recursos financeiros para terem seus espaços, ou por falta de afinidade com os produtores de entretenimento ou de noticiário, que se identificam com  a pauta conservadora, como eu já disse aqui. O espaço que têm sido usado abundantemente por vários desses indivíduos e grupos é o das mídias alternativas, especialmente a internet. Sites, blogs e contas em mídias sociais são veículos para dar voz aos evangélicos progressistas que têm sido capazes de mobilizar para ações e de chamar a atenção das grandes mídias. Casos ocorridos em período recente como a bem-sucedida coleta de assinaturas solicitando o afastamento de Eduardo Cunha da Presidência da Câmara dos Deputados (outubro de 2015) e os atos de evangélicos contra o impeachment da Presidente Dilma Rousseff (março e abril de 2016) ilustram o que digo.

Mas esta não é uma atividade qualificada, boa parte das vezes. Há muito amadorismo e voluntarismo que impede o avanço dela.  Há ainda desarticulação dos diferentes grupos minoritários. Por isso, é possível afirmar que estas ações contra-hegemônicas só alcançarão visibilidade e reconhecimento público mais amplo se houver ação conjunta entre os diferentes grupos progressistas.

Leia a primeira parte da entrevista “Conquistados, eles conquistam: transformações do segmento evangélico brasileiro e suas relações com a mídia”

E em junho voltaremos com uma entrevista exclusiva com o professor Dr. Luiz Signates sobre Comunicação e Espiritismo Kardecista. Fique ligado e acompanhe nossa página no Facebook

 

TEXTOS PARA APROFUNDAMENTO:
SOBRE A ENTREVISTADA

Magali do Nascimento Cunha é doutora em Comunicação pela Universidade de São Paulo (2004), Mestre em Memória Social pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (1997) e Graduada em Comunicação Social (Jornalismo) pela Universidade Federal Fluminense (1985). Atualmente é professora da Universidade Metodista de São Paulo, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação. Líder do Grupo de Pesquisa Mídia, Religião e Cultura (MIRE) e coordenadora da Conferência Brasileira de Comunicação Eclesial (ECLESIOCOM). Tem experiência nas áreas de Comunicação e Cultura, Comunicação e Imaginário e Comunicação e Religião, com ênfase nos seguintes temas: comunicação, cultura, religião, evangélicos, política, análise do discurso, mídia. Integra a Associação Internacional Mídia, Religião e Cultura (International Association Media Religion and Culture), é representante da Universidade Metodista de São Paulo na Associação Mundial de Comunicação Cristã, Seção América Latina (WACC-AL), e é colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas, com sede em Genebra/Suíça.

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Marco Túlio de Sousa
Doutorando em Comunicação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), mestre em Comunicação pela UFMG e graduado em Comunicação (Jornalismo) pela UFJF. Criador do grupo "Mídia, Religião e Poder" no facebook e do blog "Mídia, Religião e Sociedade".

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